22.12.09

A um gato



A UM GATO


 


Os espelhos não são mais silenciosos,


Nem mais furtiva a aurora aventureira:


Eras, à luz da lua, essa pantera


Que ao longe divisamos, temerosos.


Por obra indecifrável de um decreto


Divino, te buscamos baldamente;


Mais remoto que o Ganges ou o poente,


A solidão é tua, e o mais secreto.


Teu lombo condescende à vagarosa


Carícia de uma mão. Tens admitido,


Desde essa eternidade que é já olvido,


O amor de minha mão tão receosa.


Em outro tempo estás: és dom, suponho,


De um âmbito cerrado como um sonho.


 


 


Jorge Luis Borges


 


 

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